GIRANDO LÂMPADA!


02/07/2005


Ulisses

Ontem tive que encarar uma destas peças que a vida prega na gente, quando menos esperamos: perdi meu cachorro, o Ulisses. O coitado morreu vítima de uma torção gástrica. Sofreu tanto que quando minha mãe encontrou-o, ainda vivo, estava com as patas em carne viva, de tanto arranhá-las contra a parede (pela dor, só podia ser), levou num veterinário filho da puta, que disse que não podia fazer nada e sugeriu que levásse-o para uma cirurgia, em outro lugar. Saí voando do trabalho para levá-lo, mas no meio do caminho meu irmão ligou, já era tarde.

O Ulisses tinha 11 anos. Comprei-o como um Weimaraner, os veterinários diziam que não era (ele era marron, não cinza), mas para mim pouco importava. Era diferente, quase gente (melhor que muita gente). Comia de tudo, várias vezes atacou a fruteira de casa para roubar batatas, chuchus e frutas para comer. Era hábil descascando tangerinas e gostava de cerveja. Depois que eu casei ele continuou na casa da minha mãe (que é ao lado da minha), sempre que me via corria para buscar um pedaço de madeira, uma garrafa plástica ou qualquer trapo velho e ficava sacudindo e rosnando na minha frente, para que eu brincasse com ele. Ficava puto quando entrávamos dentro de casa e ele ficava para fora, ou quando ficava sozinho em casa. Uivava feito um louco quando ouvia a buzina dos vendedores ambulantes. Tinha um porte de impor respeito, mas era dócil com qualquer um que lhe desse confiança e nunca mordeu ninguém. Nunca ficou doente, e com 11 anos, um idoso, mantinha a energia de um filhote e uma felicidade inexplicável.

Pensar no quanto ele sofreu é o que mais dói, estamos todos desolados, ainda acho que o veterinário deveria no mínimo sugerir o sacrifício para poupá-lo dador. Foi foda ter que levar aquele corpo enorme, gelado, para o veterinário (outro) dar fim. Só quem gosta de cães sabe o quanto isso dói.

O Ulisses será inesquecível, como todos os outros que já tive. É difícil não chorar quando falo dele e dói prá caralho. Tive cachorros por uma boa parte da minha vida, e a dor da perda nunca me fez desistir de tê-los, uma fase se encerrou, outra começa hoje: comprei um filhote de boxer, que vai ficar com minha mãe. Ainda não tem nome, estamos entre Golias, Ozzy ou Thor. Vai ficar com ela porque nos últimos anos o Ulisses era muito mais dela do que meu. E se ele for metade do que o Ulisses foi, vamos ficar todos satisfeitos.

 

 

 

Escrito por Marcos às 20h45
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